Como não tenho fotografias desse tempo e, infelizmente, não guardei até hoje "livros de autógrafos", "questionários"(?) e outros documentos dos tempos de Medelim, decidi colocar uma "Última Ceia" muito original (porque nela o Judas é um "apóstolo" como os outros e sabe-se lá o que é que lhe deu na altura e porquê e não se fala mais no assunto que também tenho 2 gatos, o João ratão e a Carochinha e nem ele espreita panelas, nem ela fica sozinha porque ele não passava de um judas do seu destino)... Posto isto e porque de mais uma "última ceia" parece ter surgido este blogue de amizades e recordações, quero retomar alguns temas de comentários e deixar um texto um pouco mais compostinho. Aqui vão, então, algumas recordações de professores nossos amigos em seus dias sim e nossos Judas de serviço em seus dias não...
O primeiro é o Padre António Ribeiro, que foi meu professor de francês no 1º ano e que, penso, será o mesmo Padre Lamego de que aqui já se falou e que pelos vistos era Director (nunca percebi!): massacrou-nos com a fonética do Francês e mais gramática e muita gramática (e viva a matemática, que sempre era uma ajuda para a dita) e com a malfadada guerra Israelo-Árabe, que me deu muitos pesadelos antes de adormecer, à espera que se acabasse o mundo com uns homens de turbante a rebentar apocalipticamente o universo, levando Israel na frente e com ela todos os seguidores de Cristo e Deus Nosso Senhor, lá íamos nós todos para a Semana Santa outra vez, onde é que eu me havia de esconder? Na travesseira, claro, com o rosto lá todo encafuado e bem escondido, a custo respirando e... está bem, está bem, Mãe... e lá me levantava e aprontava para apanhar o autocarro do Colégio que vinha da Benquerença, do Vale, da Meimoa, com paragem nas aldeias do Bispo e João Pires, antes de chegar a Medelim... Entretanto, o pesadelo já era, no meio de tanta cantoria e risada e brincadeiras à espera no pátio da D. Mimi, no campo dos rapazes, entre os 2 edifícios do Colégio, no arrabalde para os picnics do almoço, no rés-do-chão do 2º edifício com espectáculos teatrais com direito a bilhete e tudo para ver a Maciel lálálá-lálálá, a Sandie Shaw toda loura e descalça e mais umas quantas travessuras a jeito de improviso dia-a-dia, sempre novo, sempre diferente, todos diferentes, todos iguais... TRRRRRIIIIIMMMMMM e lá ia tudo a correr para as salas do 2º ano...
Acabou-se o Padre António, entra o Engenheiro Ressurreição, do alto do seu metro e noventa ou lá que fosse e era tão alto como a Torre Eiffel e dava Francês viajado e organizado, anedotas nem sempre muito católicas mas que o faziam esboroar-se a rir e nós atrás e uma Matemática a sério, com arrumação discreta e arrumada num sumário geometricamente desenhado e embelezado com letra da escola francesa... Acho que foi dos meus melhores professores e definiu em muito a minha vida (foi com ele que comecei a trabalhar no Colégio e era na casa dele que eu comia, na altura)... Ainda assim e nos dias de judeu-árabe de Padre António Ribeiro, tive direito a passar uma aula de matemática de joelhos por me ter esquecido de fazer os t. p. c. (a Leontina e a Filomena Canelas lá me iam animando), a ter um zero na caderneta por não saber de cor uma poesia em Francês, que ele só marcara na 2ª turma e a ficar com as impressões digitais dos seus 10 dedos impressos nas minhas tenras bochechas durante todo o santo dia, por lhe ter "respondido" que não marcara uma certa tradução escrita de um texto e só por isso não a fizera... É verdade, levei 2 lambadas monumentais e à francesa (e em toda a turma safaram-se 3 ou 4) de um professor que eu adorava e numa disciplina em que o adorava...
A D. Irene, de paciência infinita e a fazer o seu crochet de óculos bem entalados na ponta do nariz, livrou-me 2 ou 3 vezes das garras do Honorato e dum amigo dele de Penha Garcia, quando decidiam roubar-me o garruço e jogar com ele ou, pior ainda, fazer de mim bola de volley ou andebol, o que um dia me fez gritar tanto de horror por me ver já com os ossos fraquitos todos escaqueirados no chão, que a D. Irene saiu de sua casas qual Sandokan de saias e ai meus malandros que eu vou dar queixa ao sr. engenheiro... foi o que eu quis ouvir e fugi muito contente à espera que o Sr. Engenheiro lhes mostrasse o seu metro e noventa e tal de autoridade e justiça... Pois é, mas a mesma D. Irene, em dia de Judas à antiga, espetou comigo da sala de estudo para fora aos gritos de "agora, agora, até a formiga tem catarro!... Rua, rua, rua!... e já!...) e tudo isto porque a Fátima Avelar (que era minha companheira de carteira, quando a Natália falhava) decidiu que eu havia de gritar porque a ela não lhe apetecia estudar mas brincar com um alfinete com que, calma e olimpicamente, me ia picando as bochechitas do rabiosque, até eu ser surpreendida por uma alfinetada mais profunda e "cobarde" que me obrigou a um grito proibido, grito sério, daqueles que punham uma turma de estudo à gargalhada... Acreditou lá ela que eu recebera a alfinetada, se a Fátima jurava a pés juntos com o seu ar cândido e muito chocado que ela não tinha alfinete nenhum e que... etc... etc... formiga... formiga... formiga com catarro.. e, olha: rua e uma vergonha daquelas e uma humilhação de formiga desfeada em lágrimas, que foi o que eu passei...!
Já comi muitas "cerejas" e a conversa vai longa... só falo de mais um comensal, porque me deu a minha disciplina preferida no Colégio: Canto Coral, com um dia dedicado ao Orfeão. Aí sim, eu era calma e feliz e tinha do "Tenente" Ribeiro uma ideia diferente de professor: mais amigo, brincalhão, mas... anos mais tarde, já em Filosofia, ainda me ameaçou com a rua várias vezes... além de que nos não deu solfejo nas aulas de Iniciação Musical, porque as pessoas não gostavam porque era chato - dizia ele - e eu fiquei para sempre a desenhar claves de sol, colcheias e semi-colcheias, porque são uns caracteres muito bonitos... Fosse ele o Padre Ribeiro e espetáva-nos com a fonética da Música e mais tarde ainda lhe agradecíamos, que é o que eu faço agora e da forma mais sentida e sincera que me conheço...
Peço desculpa por ter sido tão longa, mas acabei por retirar umas cerejas do cesto que vinham acopladas em raminhos de 3 e 4 e demorei mais tempo... Entretanto, recordei alguns dos comensais desta "última ceia" original, já muito filtrada pela patine dos tempos e das aprendizagens... O que é agradável no desnho é que o Judas quer mesmo comer e conviver e por isso tem o sorriso dos outros e não tem armas na manga ou dinheiros nos bolsos... "Todos com diferenças, mas todos apóstolos", legendou Ana Cardoso na sua Ceia... e eu gostei. Dela e de estar aqui convosco. Beijinhos. Até já.